quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Horário eleitoral: fator decisivo nas eleições tocantinenses



Dizem que a campanha eleitoral começou em 5 de julho, seu prazo inicial. Alguém viu algum candidato por aí, principalmente ao cobiçado cargo de governador do Estado? Enquanto eleitor, eu não vi. Apenas li uma notinha em um jornal, do tipo agenda. Era uma nota fria e sem foto, que relatava, em poucas linhas, algumas viagens ao interior do Estado. Eu não estava lá. Não vi os candidatos, não acenei para eles nem apertei as suas mãos.

Acho que a campanha começa, pra valer mesmo, é em 15 de agosto, com o início da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Claro que, pela TV, não haverá o aperto de mão, mas terá a emotividade do olho-no-olho, da voz firme, das boas propostas, dos companheiros argumentando que este é melhor para nos representar que o seu adversário.

Será uma rotina. De segunda a sábado, nós sentados em nossas salas, após o jantar, e eles lá, junto. Numa troca de intimidades, virão até onde estamos e falarão diretamente para nós, mostrando como vivem e trabalham, quem são seus amigos e o que pretendem fazer para melhorar nossas vidas. Ao mesmo tempo, poderemos adentrar, todos os mais de um milhão e trezentos mil tocantinenses, na casa dos candidatos, e ver como é seu convívio familiar e quais são os seus hábitos.

Na verdade, acredito que a propaganda eleitoral gratuita será não apenas o marco inicial da campanha, mas também o seu fator decisivo.

No Tocantins, estamos vivendo a primeira campanha eleitoral polarizada para o cargo de governador, com dois candidatos que chegam à reta inicial com chances de vitória semelhantes. Também é a primeira campanha que não conta com shows associados aos comícios, o que atrairá menos pessoas à praça pública. “O que ir fazer lá”, pensará parte dos eleitores, “se nem camisas e bonés podem ser distribuídos?”. Poucos deverão deixar a comodidade da sala de TV para ir à rua e, de pé, ouvir político discursar.

Portanto, nesta campanha o palanque promete ser mesmo é eletrônico. Em eleição, se convence com emotividade, e não com propostas, e a propaganda gratuita na mídia é o melhor canal para se chegar a este resultado.

O corpo-a-corpo não pode ser deixado de lado, mas certamente terá sua importância reduzida. A mobilização das lideranças do interior, se bem coordenada e feita com paixão, poderá ser tão decisiva quanto os programas políticos. Neste caso, porém, existe a condição do “se”.

Assim, deve convencer a já reduzida parcela do eleitorado que ainda não fez sua escolha aquele candidato que estiver com campanha mais bem estruturada e com bons profissionais em sua equipe. Argumentos pra se usar, existem dos dois lados. Vamos ver quem o faz melhor.

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Julho/2006

Não sou Homer Simpson



Quando pensei que, com a derrota patética do Brasil na Copa do Mundo, eu poderia voltar a assistir normalmente os telejornais, me deparei com mais e mais notícias sobre futebol. Tudo bem! Seria questão de esfriar a cabeça e esperar por mais alguns dias, até que a Copa se encerrasse. Enfim, a final. Acabou? Que nada! Na ressaca de informações, o mundo inteiro se volta a uma questão: como o craque Zidane pôde perder a calma e encerrar sua carreira dando uma cabeçada no adversário.

A imagem da cabeçada é repetida a exaustão na TV e na internet, como se nada mais importante estivesse acontecendo em todo o planeta ou neste nosso país de dimensão continental. Foram muitas as especulações sobre o porque do destempero do jogador. Mais notícias: amanhã, o craque se explicaria. No dia seguinte, Zidane se justificou. Nesse meio tempo, Cafú e os Ronaldos - o craque e o “fenômeno” - dão suas versões sobre o fiasco da seleção, enquanto os brasileiros assistem, revoltados, as imagens de italianos comemorando a vitória. Parece ser o final do enredo da Copa do Mundo e, enfim, é mesmo. Mas logo vem a notícia: acabou o mundial e recomeça o Campeonato Brasileiro. Em dezembro, saberemos quem será o vitorioso. Putz!

Não gosto de futebol. Tudo bem, reconheço que sou uma exceção à regra. Mas sei que tenho direito a uma programação plural e de qualidade, afinal TVs e rádios são concessões públicas e têm que estar à serviço da população, contribuindo com sua formação cultural. E repare que não estou sendo muito exigente, pois estou falando apenas da cobertura jornalística, sem citar aqui os programas de auditório, novelas e enlatados.

Sem querer correr riscos, apostando na criatividade e na difusão de novos valores sociais e de comportamento, a TV apenas tem reproduzido o senso comum. Assim, o telespectador não se irritaria, migrando para outros canais. Infelizmente, o telejornalismo também vem sendo produzido sob este mesmo conceito. Deste modo, se o telespectador gosta de futebol, futebol nele.
Recentemente, um editor de telejornal disse, em reunião com sua equipe, que é necessário pensar a produção da notícia lembrando que o telespectador médio do Brasil lembra Homer Simpson, personagem da série americana “Os Simpson”. Homer, além de bonachão, é folgado e não possui o mínimo senso crítico.

Não sou Homer Simpson! Quero assistir a um jornalismo mais complexo e sei que todos têm direito a isto – não apenas os brasileiros com senso crítico superior ao da média nacional, pois fazendo o povo pensar é que se forma uma nova sociedade. E também chega de menosprezar a inteligência do brasileiro mediano. Todos estamos prontos para receber mais do que nos tem sido oferecido.

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Julho de 2006

BBB: show da vida real?



Está começando o maior espetáculo brasileiro da “vida real”, a principal fábrica de celebridades instantâneas do país. Senhoras e senhores, entra no ar a 7ª edição do programa Big Brother Brasil, vulgo BBB, agora com novidades: a versão caliente BBB Só Para Maiores, que será exibido nas madrugadas, pela Rede Globo de televisão; e as câmeras exclusivas nos banheiros e na piscina da casa, para o deleite dos assinantes do portal Globo.com. Mais invasivo que nunca.

Os personagens da novelinha já foram apresentados. Com média de idade de apenas 25 anos, diversos sendo loiros (mesmo que oxigenados) , eles exercem profissões tão díspares como as de modelo, hostess, tradutor e produtor de marketing. Um quadro inverso à realidade brasileira, em que a perspectiva de vida é de 71 anos, negros e pardos representam 45% do contingente populacional e em que a maioria das pessoas trabalha nos setores de serviços, na área agrícola ou no comércio, segundo dados do IBGE. Em um país em que a população oscila, cada vez mais, entre pessoas subnutridas ou com sobrepeso, o programa se apega à estética da mídia, escalando integrantes de porte atlético. Todos eles. Ainda assim, o BBB é chamado de “show da vida real”!

Com certeza, o Big Brother Brasil não se assemelha em nada à minha vida. Não me pareço com aqueles personagens nem vivo confinado em uma mansão, alternando meus horários entre piscina, academia de ginástica e confabulações em grupo.

Mas resta um único alento. Numa tentativa de simular a diversidade brasileira – ou simplesmente consolar segmentos marginalizados - , foram escalados um participante negro e outro nordestino, do total de 16 integrantes do programa. A mesma fórmula das edições anteriores.

Contribuições
Em um mundo em que a influência de um artista é medida por seu tempo de exposição na mídia, e não mais por sua produção cultural, o BBB traz grandes contribuições. Em um mundo em que a curiosidade sobre a vida íntima dos famosos não para de crescer, a ponto de tornar imperceptível o limite entre o público e o privado, o BBB é emblemático.

De um dia para outro, o programa eleva um grupo de anônimos à categoria de estrelas globais. Para o bálsamo de milhões de telespectadores, pode-se acompanhar, em horário nobre, seus dramas e romances, o desenvolvimento de amizades e desafetos e até suas trocas de roupa.
Tudo isso mostrado em ângulos e closes estratégicos. Tudo editado de maneira a acentuar os traços da personalidade de cada participante, criando os personagens típicos de um folhetim. Uau! Nenhuma novela é tão convincente, tão “real”. Nenhuma revista ou programa de fofoca jamais conseguiu ser tão detalhista.

Ao público, não interessa que a fama destes personagens seja passageira – como é de todas as outras celebridades instantâneas (incluindo as clássicas marias-chuteiras, marias-pandeiro, as inúmeras “modelo-atriz-e-dançarina de pouca roupa” e as passistas que se destacam a cada Carnaval). O bom é devorá-las. A digestão é rápida, mas logo é oferecido o prato seguinte.

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Janeiro de 2007

Um olhar sobre o atual mercado do disco



Verificando a lista dos discos mais vendidos, em uma revista semanal, me deparei com uma realidade óbvia mas que me passava despercebida: pela primeira vez, em mais de uma década, não há nenhum modismo predominando na música brasileira nem uma banda arrasa-quarteirão atraindo para si todos os holofotes da mídia. De repente, um estalo: tem tudo a ver com a crise no mercado fonográfico, gerada pela pirataria generalizada e pela fácil acessibilidade à música via internet. Juntando as coisas, concluí que essa crise pode ser a redenção do próprio comércio musical.

Na lista dos mais vendidos, uma salada. O primeiro colocado é um tal Caio Mesquita – para mim, um total desconhecido. Em outras épocas, seria um ser onipresente nas rádios, capas de revista e programas dominicais de auditório. Segue-se na lista dos mais mais artistas-resquícios da moda sertaneja, do forró eletrônico e do brega paraense, além de discos que têm suas vendas impulsionadas pela mídia em TV. São os famigerados discos ao vivo e coletâneas, além da trilha da novela das 21 horas. Graças à MTV, emergem na lista Ivete Sangalo e Lenine. Graças aos comerciais freqüentes na Rede Globo, Milton Nascimento e até Nelson Gonçalves voltam a constar entre os músicos mais populares do país.

E com as vendas em baixa, artistas que têm público cativo em determinada região conseguem chegar à lista dos mais mais sem causar grande barulho. É o caso da banda paulista Inimigos da HP (para mim, mais um ilustre desconhecido). E o grande público? Neste primeiro momento, sem se ver empurrado a adotar um ídolo para a atual estação do ano, tem mesmo se apegado a nomes de um passado recente. Aí, valem também a pop Ana Carolina e os sertanejos Bruno & Marrone.

Agora, enfim, explico o que considero uma redenção no comércio da música. Atordoadas com as baixas perspectivas de vendas, as grandes gravadoras não se sentem seguras para fabricar novos modismos e astros populares, com todos os custos que isso implicaria. Assim, não interferem no processo, deixando as águas seguirem seu fluxo natural. E isso é bom. Muito bom!

É como se as gravadoras, sem saber como se adaptar à realidade da pirataria e sobretudo da popularização da música via internet, tivessem jogado a toalha. Hoje, já não praticam suas tradicionais artimanhas comerciais.

Com o público ditando os rumos do mercado, há uma pulverização de artistas. Não há mais o ídolo do momento. Há uma sensação de que todos os músicos estão em pé de igualdade. Todos podem chegar “lá”, embora sabendo que seu sucesso não será mais supremo.

Tentando enxergar à frente, tenho a impressão que, em um futuro muito breve, os discos serão meros instrumentos de divulgação. Com a acessibilidade tecnológica, cada artista poderá produzir suas próprias músicas e disponibilizá-las via internet, gratuitamente ou a preços módicos. O que valerá é se fazer notório em meio a tantas opções musicais, cativando um determinado público para manter uma agenda de shows e obter sua renda.

Assim, poderemos continuar apreciando ídolos nacionais e mundiais, mas teremos mais chances de conhecer a banda de rock do filho do vizinho. Espera! Mas isso já vem acontecendo, num processo que não deve ter mais recuo. É. Realmente vivemos um momento de transição. Oxalá a tecnologia. Oxalá a democratização da cultura.

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Setembro/2006

TODOSJUNTOS!



DEUMLADO,
MarcosCamacho - MarcolaRobertoMarinhoLeonardoRodriguesParejaHildebrandoPascoalLuizFernandoDaCosta - oFernandinhoBeiraMarFranciscoDeAssisPereira –oManíacoDoParqueEmílioGarrastazuMédiciFranciscoDaCosta Rocha –oChicoPicadinhoAntônioCarlosMagalhãesJoãoAcácioPereira - oBandidoDaLuzVermelha FernandoCollorDeMeloMárcioAmarodeOliveira - oMarcinhoVPNicolauDosSantosNetoFranciscoDasChagasRodrigues
PauloSalimMalufTenórioCavalcanti-oHomemDaCapaPretaSérgioAugustoNayaJoséAugustoDoAmaral - oPretoAmaralRobertoJeffersonMarceloCostaDeAndrade - oVampiroDeNiterói
JoãoAlves -"Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro"..

DOOUTROLADO,
VocêEuDorothyMaeStangZuleikaAngelJones – aZuzuAngelFranciscoAlvesMendes – oChicoMendesVladimirHerzogFernandoRamosDaSilva - oPixoteAsMãesDoTráficoMoradoresDoPalace2VítimasDaFavelaNavalPassageirosDoÔnibus174OsChacinadosEmEldoradoDoCarajásVigárioGeralCandeláriaBaixadaFluminenseOsMeninosDasCarvoariasAposentadosBrasileirosTrabalhadoresEscravosMoradoresDeRuaUsuáriosDoSUS...
EMGRUPOSOPOSTOS,MASTODOSJUNTOS!

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Dezembro de 2006

Felicidade quando?



Por diversas vezes ao longo dos anos, ouvi curioso um certo comentário: “Há que existir vida após a morte. Não teria sentido ser apenas esta existência!”.

A princípio, pode parecer que nos julgamos importantes demais. Afinal seria muito pouco viver uns cerca de 60 anos, sabe-se lá, e depois simplesmente deixar de existir, sem legados para a humanidade ou marcas na história.

Mas entendo esse comentário como resultado de vidas guiadas sob a perspectiva de uma felicidade futura. Muitos condicionam o bem-estar à compra de um veículo, de um imóvel ou à ascensão profissional. Dedicam o dia-a-dia a atingir esses objetivos, com muito trabalho e planejamento. Olham sempre para frente, mas sem contemplar o pôr-do-sol no horizonte. Não sobra tempo para quase nada, muito menos para ser feliz agora.

Enfim, chega o dia em que estão motorizados, com casa própria ou promovidos no emprego. De tanto planejar, porém, há muito já sentem a necessidade de ir além. Na caminhada, constituíram novos sonhos. Foi bom ter conseguido isto, mas agora querem mais. Afinal, como diria Raul Seixas, “eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado”.
É correr atrás. Temos de ser práticos e caminhar com firmeza, mesmo que nos percalços precisemos chutar alguns calcanhares ou aplicar rasteiras. Assim, alcançaremos a felicidade. Se não for nos próximos anos, será após a “passagem”, em shangri-lá, no céu, no paraíso... Esse é o alento dado por qualquer das religiões.

A ciência diz que temos ciclos de vida que justificam nossa existência: nascer, crescer, reproduzir e, por fim, morrer.Não precisamos ser marcantes em nossa existência, mas apenas contribuir para a perpetuação da espécie. Contudo, ninguém se contenta com esse encargo meramente biológico.

Por isso, alguém de inspiração poética estabeleceu missões mais nobres para cumprirmos: escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Seria uma vida plena, assinalada pelo aprendizado e pela garantia de um presente e um futuro sustentável.

O questionamento do sentido da vida é inerente ao ser humano e encontra eco sobretudo nas artes. Na música brasileira, acho quem melhor retratou essa inquietação foi Gonzaguinha. “Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo. É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo... Há quem fale que é um divino mistério profundo. É o sopro do criador, numa atitude repleta de amor”, diz, na canção O que é o que é. Mais à frente, ele sentencia: “Somos nós que fazemos a vida, como der ou puder ou quiser”. Uma verdade genérica, porém, a princípio, inquestionável.

Mas, amadurecendo aos poucos, tenho procurado me guiar pela sabedoria caipira de Almir Sater. Hoje, eu também “penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir tocando em frente”, guiando grandes e pequenos projetos, mas também sonhando, aprendendo a contemplar um céu estrelado, uma chuva fina, se emocionando com um bom filme ou desfrutando da presença daqueles que amamos. Tudo sem o manto de grandes mistérios sobrenaturais.

E acho que apenas essa existência sobre a terra é suficiente sim, basta que sejamos dignos dela. Se vivermos 60 anos, serão mais de 21 mil dias – um segundo em relação à eternidade, mas um período suficiente para desfrutarmos sem avareza das boas sensações, sem precisar empurrar os sonhos para uma suposta vida pós-morte.

Para apreciar a vida, falta entender que tudo é passageiro. Incluindo a tão sonhada felicidade – que “é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas
tem a vida breve. Precisa que haja vento sem parar”. Boas ou más sensações, tudo finda e depois se renova. Nada, como nós mesmos, é eterno.

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Dezembro/2006

Mais a forma que o conteúdo - artigo



O ofício de modelo é, no mínimo, esquisito. A qualidade destas profissionais se mede por números decimais: peso, altura, busto, cintura e quadril. Seu “prazo de validade” é determinado e, aliás, extremamente curto. Vivem num mundo efêmero de glamour, sendo aplaudidas como artistas ou celebridades, quando não produzem nada que dê sustentação a estes títulos. Artistas são aqueles que fazem arte; célebres, segundo o dicionário Houaiss, são pessoas “notáveis, distintas pelo saber, mérito e demais qualidades”.

Não menosprezo a profissão de modelo, pois acho válida qualquer forma legal de se ganhar a vida. Decidi abrir o artigo com estas considerações por enxergar sua supervalorização como o sinal mais aparente de uma inversão de valores sociais, patrocinada pela mídia. A cada dia, se valoriza muito mais a forma que o conteúdo.

O Brasil só perde para os Estados Unidos em quantidade de academias de ginástica por grupo de habitantes e também em número de cirurgias plásticas realizadas anualmente. Já são 500 mil plásticas, uma conta que cresce em progressão geométrica, segundo diz a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Em breve poderemos estar no topo.

Enquanto isso, o consumo de livros declina no país. Em 2004, a vendagem de livros não-didáticos caiu para 1 milhão de exemplares a menos que o registrado uma década antes, em 1991, de acordo com a Câmara Brasileira do Livro. Ou seja, nosso poder de compras cresce, porém investimos mais no bisturi - leia-se em estética - e menos em conhecimento.

Pesquisa feita em 30 países aponta que, no quesito horas de leitura, o Brasil ficou para trás, ocupando a 27ª posição do ranking. Inversamente, somos a 8ª população que mais dedica seu tempo a assistir TV. Todos os dados se encaixam direitinho. População pouco culta é população mais influenciada pela mídia.

A cada dia, com maior ênfase, se valoriza mais a juventude e a beleza, incluindo ai um belo corpo “sarado”. Estar acima do peso ou envelhecer aparentando a idade que se tem é praticamente um delito para a geração atual. Todos queremos ser como os modelos ou os astros das novelas e filmes: jovens, belos, esbeltos, de tônus firme e com traços faciais finos.Se a natureza não ajuda, vale entrar na academia ou mesmo se submeter ao bisturi, procedimento cirúrgico que caiu na prática das banalidades. Realmente, tudo se encaixa.

Aquelas figuras retratadas nas revistas vão se tornando o “modelo” de uma beleza que almejamos para nós mesmos, embora sua aparência destoe da grande massa e elas apareçam maquiadas, sob a luz mais adequada, o ângulo mais perfeito e altamente retocadas por programas de computadores.

Assim, não há quem não queira perder ao menos dois quilos, fazer uma lipoaspiração, mexer nos seios, afilar um pouquinho o nariz... Todo mundo está insatisfeito com seu corpo, nem que seja um pouco. Raciocine: quantas pessoas do seu círculo de amizades faz regime ou, pior, controla o peso à base de medicamentos. Ou a natureza está completamente errada ou nossos padrões estéticos é que estão entrando em choque com o mundo real. Qual destas duas possibilidades você acha a mais correta?

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Dezembro/2006

“Turistas” e seu contexto histórico



Em 1942 surgiu um personagem simbólico no universo da Disney. Zé Carioca, o estereótipo de um brasileiro malandro e amistoso, apresentado no filme “Alô, Amigos”, era o primeiro ícone da política de boa vizinhança que começava a ser empreendida pelo governo norte-americano, ávido por angariar a simpatia das nações da América Latina em meio a 2ª Guerra Mundial. Pouco depois, Carmem Miranda, uma baiana estilizada, com brilhos, balangandãs e um sorriso permanente, cristalizava a imagem de um Brasil festivo. Tamanho era importante a amizade entre as nações que Carmem – portuguesa de nascimento – se firmou estrela de Hollywood, tornando-se o principal símbolo da cultura brasileira nos Estados Unidos.

Sessenta e quatro anos depois, Hollywood mostra que continua com uma imagem estereotipada sobre nós. Só que agora o filme “Turistas” - primeira longa metragem norte-americano filmado inteiramente no Brasil, que estreou em dezembro nos EUA e que chega aqui em fevereiro – acentua os estereótipos, chegando a retratar um Brasil completamente distorcido. Esta mudança é resultado do atual contexto histórico. Entronizados na condição de única superpotência mundial e certos de que a globalização difundiu o “american way of life” como padrão de vida para populações do Ocidente e Oriente, os Estados Unidos mostram que, agora, pouco importa agradar àqueles que vivem abaixo da linha do Equador.

Em “Turistas”, um grupo de jovens norte-americanos curte férias na costa do Brasil. No início do filme, naturalmente, predominam as praias ensolaradas. Tudo é festa. Só falta vir até o grupo, oferecer caipirinha, uma mulata sambando, com biquíni de lantejoula, sapatos de salto alto e plumas na cabeça.

Só que no Brasil de “Turistas” os centros urbanos estão ao lado de densas florestas. Quando o ônibus em que os jovens viajam sofre um acidente, eles se perdem na mata e o que então era festa começa a se tornar uma luta pela sobrevivência. O grupo é acolhido por moradores de uma prainha, personagens muito diferentes daquele Zé Carioca, anfitrião que, em “Alô, Amigos”, apresentou as belezas do Rio de Janeiro ao colega norte-americano Pato Donald. A trilha sonora do passeio era “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. Em “Turistas”, tudo o que os brasileiros querem é exterminar o grupo de jovens, para extrair seus órgãos e repassá-los ao mercado negro de transplantes. Antes, éramos retratados num misto de desenho animado e musical. Hoje, em um filme do gênero terror.

Naquela ainda recente década de 40, Walt Disney foi designado pelo governo dos Estados Unidos para integrar uma lista de pessoas influentes que visitaria os países sul-americanos, para promover um estreitamento das relações políticas. No Rio de Janeiro, Disney conheceu as paisagens e costumes que o inspiraram na criação de “Alô Amigos”. Muita coisa mudou nesse período. Por isso, é improvável que “Turistas” tenha sofrido qualquer influência política em seu enredo.

De lá pra cá, o governo norte-americano aliou a sua política de dominação cultural à promoção de governos ditatoriais em países da América Latina. Ainda comemorou o fim da União Soviética, cartada que pôs os Estados Unidos na condição de centro econômico do Mundo. Enquanto isso, o Brasil apenas consolidou sua imagem de “República das bananas”. Realmente, parecemos muito pouco aos olhos do prepotente George W. Bush. Ele não liga pra gente.


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Dezembro/2006

Sobre saudades e futuro



Sou Flávio Herculano. Um cidadão, contribuinte com a União, Estado e município. Para a Justiça Eleitoral, INSS, Ministério do Trabalho e para uma infinidade de órgãos públicos sou apenas uma seqüência de números. Para os bancos, um valor financeiro. Para as Forças Armadas, um excesso de contingente. Para o Judiciário, um civil de ficha limpa. Para os meus amigos, acredito ser um cara boa praça e confiável. Sou um profissional - para mim, esta é, hoje, minha característica predominante.

Gosto de ser Flávio Herculano. Sou este já há quase cinco anos, quando abracei meu ofício e comecei a assinar como Jornalista. Foi com este nome que cheguei em Palmas, que me tornei conhecido entre os meus de agora, que tenho amadurecido, conseguido autonomia e aprendido a enxergar a simplicidade da vida.

Mas tenho saudades de ser apenas Flávio, aquele estudante de poucas preocupações, que todos os dias adentrava o mar e lavava a alma, que descobria com grande entusiasmo a beleza da música e das artes, que transitava pelo circuito universitário e se sentia liberto, apesar de melancólico. Como Flávio, aparentemente, um mundo estava a me ser revelado. Tudo parecia estar prestes a começar. Mal sabia eu que a vida se desenvolvia e tinha, então, uma beleza única.

Tenho saudades também de ser Flavinho, aquele menino do sertão que corria de bicicleta toda a cidade, que brincava com os amigos por horas seguidas sem notar o passar do tempo, que tinha o abrigo da família sem percebê-lo. Como Flavinho, já achava a vida complicada, sem compreender a naturalidade com que desfrutava os acontecimentos. A vida tinha, então, uma beleza única.

Fui Flavinho em Itaporanga, no sertão seco da Paraíba. Fui Flávio em João Pessoa, curtindo a brisa do litoral. Agora sou Flávio Herculano, no calor torrencial de Palmas, no Tocantins.

Amigos, nunca tive em grande número - apenas o suficiente para me sentir seguro e com as raízes fincadas neste planeta. Na infância, Samuel, Gilson e Sávio. Na pós-adolescência, Cláudio, Júlio e Vall. Na vida adulta, Rose, Ramiro e Wherberth.

Interessante pensar que os personagens destes três grupos nunca se cruzaram, como se, para isto, necessitassem romper uma barreira no tempo. Em comum, estas nove pessoas têm apenas a mim, o que, de certa forma, me faz acreditar na amplidão da vida e me sentir especial. Excetuando a mim mesmo, talvez minha mãe seja única pessoa que conheceu a todos estes amigos, o que confirma sua presença permanente em minha vida. Sem dúvida, ela é que é meu real vínculo com este universo, desde os tempos do cordão umbilical.

A todos aqui citados, meus agradecimentos. Tenho 29 anos e sou um mosaico, sou um pouco de cada um de vocês. Obrigado Carmem, Mércia, Samara, Suzana, Daianne, Tati, Thays... Vocês me fazem enxergar que, apesar dos percalços, ainda é valida a crença no ser humano. A força do justo está no feminino. Obrigado a todos que ainda estão por vir, que acrescentarão novas peças e farão de mim um novo Flávio.

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Novembro/2006

Um panorama da arte brasileira no Tocantins



Estado é o primeiro a receber o acervo particular de Lily Marinho, com 60 peças - entre quadros e uma escultura - dos mais diferentes movimentos artísticos brasileiros. Ao expressar o olhar “humanístico” da colecionadora, a exposição traça um perfil dos nossos costumes.

Nascida na Alemanha e filha de pais ingleses, Lily Marinho – viúva do jornalista Roberto Marinho – possui, naturalmente, um olhar diferenciado sobre o Brasil. Com apurada formação artística, fez dos mestres da pintura nacional seus guias por nossa cultura, ao reunir um acervo que toca as paisagens, personagens e tradições populares do país. E é para o público do Tocantins que ela apresenta, em primeira mão, esta sua perspectiva de Brasil, através da exposição “Arte Brasileira na Coleção de Lily Marinho”, que permanece no Palácio Araguaia, em Palmas, até 10 de janeiro.

Estão expostas 60 obras da colecionadora, produzidas entre as décadas de 1860 e 1980. Apenas seis peças são abstrações. Todas as demais ilustram o sentimento de brasilidade, em suas mais diversas cores e formas.

Retratista maior da sensualidade nacional, Di Cavalcanti traz duas de suas mulatas à mostra; Portinari reproduz nossa gente; enquanto o artista plástico e sambista Heitor dos Prazeres exibe o universo das rodas de samba, da diversão carioca e das brincadeiras infantis tradicionais – em estilo de pintura naif, ingênua e primitiva. Mais tupiniquim impossível.

A religiosidade, como não poderia deixar de ser, se faz presente através das tradições católicas e afro-descendentes. Neste núcleo da exposição predominam as telas da carioca Rosina Becker do Vale, falecida em 2000, mas ainda pouco conhecida pelo grande público. Com suas cores fortes e traços pueris, mas profundos, Rosina se tornou uma das maiores surpresas para o tocantinense.
Já por meio das abstrações, curiosos e apreciadores podem conferir traços de alguns dos principais artistas plásticos modernistas: Manabu Mabe e Tomie Othake, japoneses radicados em São Paulo. Anita Malfatti, um dos expoentes da Semana de Arte Moderna, participa da mostra com uma paisagem rural.

A própria colecionadora Lily Marinho é personagem da exposição, retratada pelo franco-holandês Kees Van Dongen e pelo russo Dimitri Ismailovitch, em telas que, respectivamente, abrem e fecham a mostra. No contexto, entre personagens e paisagens de um Brasil mestiço, Lily aparece como representante de uma sofisticada sociedade carioca – e, porque não dizer, brasileira. Em uma exposição que passeia pelas diferentes escolas artísticas, nossa realidade se mostra em toda as sua diferenças.

Também estão presentes na exposição artistas plásticos como Volpi, Iberê Camargo, Franz Krajcberg, Ivan Serpa e Pancetti. Para o público em geral é uma oportunidade única, visto que muitas das telas nunca foram expostas antes. Para quem mora no Norte do País é a primeira chance de apreciar o trabalho destes mestres.

A professora Edvângela Gregório, de Porto Nacional, aprovou a mostra. “Acredito que exposições deste nível contribuem imensamente para a construção de profissionais melhores, de pessoas melhores, de seres mais sensíveis, que percebam o outro, que percebam a si mesmo e percebam a realidade presente”, enfatizou.

VISITAÇÃO
A exposição é promovida pelo Governo do Tocantins e está aberta ao público de terça a domingo, das 9h às 21h, no Palácio Araguaia, com entrada gratuita.
Universidades, escolas e grupos interessados em visitas agendadas podem entrar em contato com a Fundação Cultural, em horário comercial, através dos telefones (63) 3218. 3331 ou 3218. 3372.


Publicado em: www.jornaldotocantins.com.br e www.to.gov.br/secom
Novembro/2006

Zuzu Angel: drama e política na dose certa



De tempos em tempos, a Ditadura Militar retorna às telas do cinema nacional, como uma ferida que nunca cicatrizou e volta a pulsar. Zuzu Angel, de Sérgio Resende, é o mais novo representante desta seara de filmes. Contudo não é apenas mais um entre tantos outros, como tenta subjulgar parte da crítica especializada. É, sim, um ótimo filme, que tem como mérito um roteiro e uma direção eficientes, somados a atuação magistral de Patrícia Pilar no papel título.

O filme retrata o período de vida em que Zuzu Angel, uma costureira de classe média, desponta no mundo da alta costura e vê as portas do mercado internacional se abrirem à sua produção. Isto, enquanto seu filho Stuart Angel Jones (Daniel Oliveira) se descobre revolucionário e vai às ruas, lutar contra pelo restabelecimento da Democracia e contra o imperialismo americano.

Zuzu faz vestidos floridos para esposas de militares enquanto Stuart vive o negror da perseguição política. O distanciamento ideológico evolui ao distanciamento físico, até que a morte nos porões da Ditadura separa, definitivamente, mãe e filho.

É a perspectiva da narração que faz de Zuzu Angel um grande filme, comovente quando poderia ser apenas panfletário. O roteiro de Marcos Bernstein e Sérgio Rezende mostra uma mulher que se vê impelida a lutar contra todo um sistema político - não por convicções pessoais, mas para ter o direito natural de sepultar o corpo do filho. E toda a aflição da personagem pode ser sentida pelo espectador, gradativamente, o que faz de Zuzu Angel um filme tenso e emocionante.

A estilista vai até as últimas conseqüências em sua luta por Justiça. Toma para si a coragem do filho e usa de todos os métodos para se fazer ouvir em meio à censura generalizada. Quando a indignação pela morte de Stuart evolui a uma consciência da repressão que assolava o Brasil, Zuzu emprega a moda como instrumento para divulgar sua indignação. As cores alegres dos vestidos que faz cedem espaço aos tons escuros; as estampas floridas são substituídas por grades e pássaros aprisionados.

Impossível não compartilhar seu choque com a realidade brasileira de então. Impossível não sentir repulsa pela frieza e arrogância dos militares, que enxergam na personagem um inimigo e nunca uma mãe em desespero. Em Zuzu Angel, política e emocional são dosados na medida certa.

Impossível também não causar estranheza a posição dos críticos negativistas. Vivemos uma Democracia recente, que muitos não aprenderam a valorizar por desconhecer o que representou seu lado adverso. É válido, sim, que o cinema retorne ao tema da Ditadura; melhor ainda se em bons filmes.

Publicado em: www.jornaldotocantins.com.br
Setembro/2006

Gorilão pouco inspirado



Dirigido pelo neozelandês Peter Jackson - o mesmo da cultuada triologia Senhor dos Anéis -, o remake de King Kong, em cartaz mundial desde o último dia 16, reproduz com fidelidade a ambientação americana dos anos 30 em que o filme original foi rodado (1933). Os créditos iniciais e finais também remetem às antigas películas americanas, imprimindo certo charme à nova versão cinematográfica sobre o gorila mais famoso de Hollywood. Aliada a efeitos especiais eficientes e a pequenas doses de humor, essa tentativa em reavivar a antiga atmosfera é o grande mérito do filme, mas não avança muito além.

A nova versão do clássico erra ao atribuir o gorilão as qualidades típicas dos mocinhos de cinema daquela época: o romantismo e a disposição em lutar pela amada. Como as platéias não têm mais a inocência de outrora, desdenha de cenas como a que King Kong induz sua amada (a atriz Naomi Watts, de O Chamado), a apreciar, silenciosamente, um pôr de sol radiante sobre a montanha. Pelo mesmo motivo, ganha aspecto de humor involuntário a longa seqüência de luta entre o gorila e um bando de tiranossauros rex.

Isso mesmo, o gorila de 7 metros de altura é um dos personagens mais humanizados do filme e nutre um amor puro e assexuado por uma mulher. Na Ilha da Garganta, seu habitat natural, Kong convive com diversas espécies de dinossauros, além de insetos gigantes e aborígenes, em plena década de 30. São elementos difíceis de se digerir, muito menos se inserido num roteiro pouco inspirado, que tenta mesclar características de cinema antigo e superprodução.

Durante quase três horas, as esparsas qualidades do filme se perdem em meio a estes clichês hollywoodianos. E em King Kong, os clichês se amontoam, estando presentes tanto os típicos do gênero de ação quanto dos romances de maior apelo comercial.

Até a existência de parte dos personagens do filme está calcada em lugares comuns, a exemplo do diretor de cinema ávido pelo sucesso, do escritor/roteirista arrebatado repentinamente pela paixão e do jovenzinho que amadurece em meio a uma aventura na selva.

Ainda assim, King Kong estreou bem nas bilheterias - mesmo ficando abaixo das expectativas – pois diverte o grande público, adepto a filmes de entretenimento badalados e cheios de efeitos especiais. É um filme que se digere tão rápido quanto a pipoca que o acompanha e que, ao final, tem seu pacote descartado na lata de lixo.

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Dezembro/2005